Joanderson Normandes, 20, natural de Maceió e ex-jogador do ASA de Arapiraca, estava há apenas uma semana em Kharkiv, segunda maior cidade da Ucrânia, onde iria começar a jogar pelo FC Volchansk, quando os ataques russos começaram. Na segunda-feira (28), Joanderson e mais quatro jogadores brasileiros conseguiram deixar o país pela fronteira com a Eslováquia.
Os outros quatro brasileiros são Victor Adame, Luan Borges, Wendel da Silva Ramos e Gabriel Patreze.
“Tudo começou na quinta-feira. Acordamos com o barulho de bombas longe do apartamento onde a gente estava. À medida que foi passando o dia, as bombas começaram a ficar mais perto fazendo tremer o apartamento da gente. Foi nesse momento que começamos a ficar mais preocupados e desesperados,” disse o jogador.
O jogador conta ao g1 que diante da tensão e proximidade dos ataques, o grupo precisou se virar para garantir que os mantimentos não acabassem.
“Tinha mais duas pessoas [Luan e Wendel ] no apartamento da frente ao nosso, e decidimos juntar todas as comidas e ficar no mesmo apartamento. Teve um episódio inclusive, que à noite enquanto conversávamos, do nada passou um avião de guerra ou um jato, e fez um barulhão, sabe? A gente correu pro bunker. Passamos o dia todinho subindo e descendo as escadas ao escutar as bombas, indo pro bunker, daí ficávamos lá uma hora, duas esperando acalmar aí depois a gente voltava”, lembrou Joanderson.
Mesmo diante dos momentos de tensão, o alagoano conseguiu registrar do apartamento em que estava, a fumaça gerada por uma explosão e tanques de guerra pelas ruas da cidade. Joanderson também registrou o bunker onde ele e o amigo se abrigavam com medo das bombas.
Para Joanderson, a verdadeira luta começou quando decidiram sair do local onde estavam rumo à fronteira, principalmente pela dificuldade com a língua local. O diretor do clube, Roman, os levou para pegarem o trem. “Um dos meninos aqui fala um pouco inglês. Mas nem todo mundo falava inglês, o que dificultou muito. Não sabíamos perguntar as coisas”.
Para sair do país foram longas horas de espera. O primeiro ponto que precisam enfrentar era a ida de Kharkiv para a capital do país, Kiev. As duas cidades são atualmente os maiores alvos do exército russo. Ainda em Kharkiv, os brasileiros ganharam comida de duas mulheres chamadas Olga e Irina.
“Era a única forma de sair. E sendo sincero, na verdade, a gente foi pegar o trem achando que ia para outro lugar, não para Kiev exatamente porque as informações eram de que lá estava bem pior”.
O relato do jogador continua com ele falando sobre os problemas enfrentados para conseguir embarcar no trem ainda em Kharkiv. “Antes das seis a sete horas de viagem, na estação era um empurra empurra, todo mundo querendo entrar e aquele desespero. Já havíamos decidido que não ia conseguir pegar esse trem. Foi quando graças a Deus veio outro vagão, parou na nossa frente e abriu a porta, coisa de Deus mesmo”.

Alagoano Joanderson foge da Ucrânia pela fronteira da Eslováquia.
A chegada em Kiev, além do medo, passou a ser preocupante pelo avançar dos dias e a falta de mantimentos.
“Estava ainda mais perigoso. Apagou tudo, não podia mexer no celular, a gente já estava com sede, com fome. Tinha pouca comida, a gente tinha que comer pouca coisa para economizar. Abríamos um salgadinho, dividia para todo mundo aí depois de horas, a gente abria outra coisa. Ficamos nove horas parados dentro da estação esperando sair de Kiev, com tudo desligado e morrendo de calor, não sabia o que estava acontecendo. E aí depois a gente saiu e seguimos viagem para Lviv”, descreveu.
Joanderson faz questão de lembrar das longas horas que passavam para se locomover de um ponto a outro. Ele descreve que ao chegar em Lviv, local para onde a maioria dos refugiados estão indo para atravessar a fronteira, tinham longas e demoradas filas, o que fez ele e as outras quatro pessoas decidirem ir para a cidade que faz fronteira para a Eslováquia.
“Na fronteira com a Eslováquia, a gente chegou achando que ia passar sem precisar pegar fila, e passamos umas duas horas esperando o pessoal. Foi quando mandaram a gente para o fim de uma fila e durante esse período fez muito frio, nevou, todo mundo passando mal. Passamos nove horas nessa situação para poder enfim passar a fronteira”, relatou.
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Alagoano passa a noite na fronteira da Eslováquia com a Ucrânia — Foto: Joanderson/Arquivo Pessoal
Em segurança, e enquanto aguardam a decisão de como será a volta ao Brasil, Joanderson e os quatro companheiros de clube, estão na casa de uma família de brasileiros na Eslováquia.
“João Paulo e Gisele Chamorra abriram as portas para a gente e estão nos tratando super bem aqui. Agora estamos aguardando a embaixada para ver como vai ser a situação para levar a gente ao Brasil”, afirma.
Agora mais tranquilo e conseguindo lembrar dos fatos, o alagoano relatou o fato de que precisou usar uma camisa escrito “From Brazil” (do Brasil), sob recomendação de uma representante da ONU, porque lá, além dos russos, havia milícias recrutando pessoas para ir à guerra.
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Alagoano Joanderson utiliza camisa identificando nacionalidade — Foto: Joanderson/Arquivo Pessoal
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Joanderson é ex-jogador do ASA de Arapiraca-AL — Foto: Joanderson/Arquivo Pessoal
Fonte: G1








