Três dias após as declarações do ministro da Secretaria de Governo, Carlos Marun, de que os postos teriam que afixar uma placa com o preço do diesel em 21 de maio (primeiro dia da greve dos caminhoneiros) e o novo preço com desconto de R$ 0,46 por litro, a equipe de repórteres do GLOBO percorreu, neste domingo, ruas de Rio, Brasília e São Paulo e encontrou alguns postos que vendiam o combustível mais barato. A previsão do governo era de que a redução de preço chegaria às bombas até amanhã, já que os postos podem vender o diesel com valor mais alto até o estoque antigo acabar.
Em Brasília, de dez postos percorridos pelo repórter do GLOBO, cinco vendiam o diesel com desconto. Gerente de um posto na região da BR-060 (que liga Brasília a Goiânia), Daniela Ribeiro contou que recebeu na noite de sábado carregamento de diesel mais barato. O posto vendia diesel a R$ 3,939 o litro e passou a vender a R$ 3,489.
— A gente estava sem estoque por conta da greve. Então, já repassamos para o consumidor o primeiro carregamento que chegou, até porque o governo mandou — disse a comerciante.
Em outro posto na mesma região, o desconto chegava a R$ 0,506. Ainda assim, o motorista de caminhão Mariano Leopoldino relatou que tentou abastecer em um posto de Brasília, mas o valor do diesel ainda estava com preço antigo.
— Pedi a nota para provar que o preço ainda estava alto e vou denunciar — afirmou, depois de conseguir encontrar um estabelecimento com diesel mais barato.
No Rio, o desconto também chegou a alguns postos. Na Avenida Brasil, o posto vendia o litro do diesel S10 a R$ 3,679. De acordo com funcionários do estabelecimento, a redução do preço foi possível porque o posto recebeu cinco mil litros de diesel neste domingo. Segundo um frentista, o último preço praticado na venda de óleo diesel era de R$ 4,05. O funcionário, no entanto, não soube dizer qual era o valor cobrado no dia 21 de maio. Tampouco havia qualquer cartaz no estabelecimento que trouxesse a informação.
O motorista de van Bruno Barcelos comemorou a redução no diesel prometida pelo governo:
— Se o preço do diesel realmente baixar, vai ficar melhor. Todo dia eu gasto R$ 140 para rodar e, há dois meses, quando pagava R$ 3,20 pelo diesel, esse gasto era de só R$ 90. Nesse curto período, a minha renda diminuiu muito. Comecei a atrasar a pensão, a prestação da van. E o pior: a gente não pode repassar o valor para o passageiro, porque o preço da passagem é fixo e se mantém o mesmo.
Cobrador de van, Uanderson Mendes, reclama dos preços ainda altos:
— Abasteci a van hoje com R$ 150, pagando R$ 3,89 cada litro em um posto da Avenida Brasil. Há seis meses, eu gastava R$ 100 por dia de diesel. Esse aumento nos prejudica muito porque nós temos muitos gastos, temos que pagar o ponto.
Em São Paulo, os postos também já vendem o diesel mais barato, mas o desconto de R$ 0,46 não está sendo aplicado integralmente. Em um posto da Avenida Santo Amaro, na Zona Sul de São Paulo, o preço do litro do diesel caiu de R$ 3,79 para R$ 3,49, ou seja, R$ 0,30. Funcionários do estabelecimento atribuíram o valor ainda alto à dificuldade de obter o produto em meio aos desdobramentos da greve das últimas semanas e a baixa oferta de diesel no mercado.
Em outros estabelecimentos da mesma região, era possível encontrar diesel neste domingo por valores entre R$ 3,34 e R$ 3,54 — também com descontos menores do que o previsto em lei. Em um posto de combustível da Avenida Sumaré, Zona Oeste de São Paulo, o preço do diesel comum caiu só R$ 0,36 por litro, de R$ 4,10 para R$ 3,74. O desconto para o diesel S10 foi ainda mais baixo, de R$ 0,30, saindo de R$ 4,20 para os atuais R$ 3,90.
O presidente do Sindicato do Comércio Varejista de Derivados de Petróleo do Estado de São Paulo (Sincopetro), José Alberto Paiva Gouveia, garante que os postos com oferta de combustível estão repassando a redução de R$ 0,46 no valor do litro do diesel, “porque é assim que a lei manda”. Ele diz que postos com diesel em valor mais alto provavelmente ainda estão com combustível adquirido há mais tempo.
No entanto, ele admite ser praticamente impossível controlar o índice real de repasse dos 8,7 mil estabelecimentos do estado de São Paulo com a oferta do produto.
— A realidade é que o governo fez uma lei esquecendo-se de um detalhe importante: cada posto tem um preço, é a lei do mercado, isso é natural — diz o representante dos postos, lembrando que não existe valor de referência para o produto.
iG








