A UE e vários de seus estados-membros anunciaram na quarta-feira que “irão fornecer mais de € 1 bilhão (R$ 5,65 bilhões) para a adaptação climática na África”. O bloco também disse que acrescentaria € 60 milhões (R$ 339,27 milhões) ao montante destinado para perdas e danos.
Mas, investigando os números, descobriu-se que dos € 345 milhões (R$ 1,95 bilhão) que a Comissão Europeia contribuiria para o pacote, apenas € 220 milhões (R$ 1,24 bilhão) seriam um “novo compromisso”, de acordo com um comunicado divulgado na quarta-feira.
O restante dos € 345 milhões já foi prometido no passado. E quanto aos € 60 milhões por perdas e danos, esse dinheiro está incluso nos € 220 milhões, em vez de ser uma soma adicional. A UE não deu detalhes sobre as contribuições de cada estado. A CNN entrou em contato com o bloco para comentar e obter mais detalhes sobre o anúncio.
Para o mundo em desenvolvimento, o resultado final é que a promessa de financiamento permanece sem ser cumprida. No Acordo de Paris, os países ricos se comprometeram a fornecer US$ 100 bilhões por ano em financiamento climático para o mundo em desenvolvimento até 2020. Dois anos após o prazo, a meta ainda não foi atingida.
A energia na África
A batalha sobre a futura infra-estrutura de energia da África emergiu como uma das questões-chave na cúpula.
Cerca de 600 milhões de africanos não têm acesso à eletricidade e quase um bilhão não tem utensílios de cozinha com energia limpa, dependendo da queima de biomassa sólida, querosene ou carvão como combustível primário para cozinhar, de acordo com a Agência Internacional de Energia.
Especialistas e ativistas estão enfatizando que muitos países africanos estão presos a investimentos em combustíveis fósseis que poluem e provavelmente se mostrarão antieconômicos em alguns anos.
Não é uma questão hipotética. Muitos dos países mais ricos do mundo estão pressionando por mais investimentos em combustíveis fósseis em vários países africanos, na tentativa de parar o consumo de gás russo por causa da guerra na Ucrânia.
O chanceler alemão Olaf Scholz voou para Dakar, capital do Senegal, no início deste ano e conversou com o presidente senegalês Macky Sall – presidente da União Africana – sobre o desenvolvimento de um novo campo offshore de gás natural. E no início deste mês, a gigante energética italiana ENI começou a exportar gás natural de um novo campo de gás em águas profundas em Moçambique.
Esses investimentos estão deixando os ativistas particularmente furiosos.
“É uma hipocrisia e estamos denunciando isso”, disse Omar Elmaawi, um ativista queniano que passou anos fazendo campanha contra o oleoduto planejado na África Oriental, destinado a transportar petróleo de Uganda para a Tanzânia, onde poderia ser vendido em mercados internacionais.
O ativista climático queniano Omar Elmaawi na COP27. / Ivana Kottasova/CNN
“A África contribuiu muito pouco para o problema climático, mas as empresas de combustíveis fósseis estão usando isso a seu favor. Eles dizem que a África foi deixada para trás, portanto, querem explorar o potencial para nos ajudar a desenvolver”, disse Elmaawi à CNN.
“Mas essa narrativa não se sustenta porque, embora chamem isso de ‘desenvolvimento’, eles querem explorar esses recursos e enviá-los para o Norte global”, acrescentou.
Elmaawi disse entender que o dinheiro que as grandes empresas de combustíveis fósseis estão oferecendo pode parecer uma opção lucrativa para alguns governos africanos, mas ele e outros ativistas dizem que querem que seus governos pensem no futuro.
“Minha avaliação sempre foi que, ou nossos líderes governamentais são realmente ignorantes e estúpidos, ou alguns deles não estão trabalhando no que seria mais interessante para seu povo”, disse ele.
O que Elmaawi, Adow e outros ativistas querem é que a COP27 ajude os países africanos a promover mais investimentos em energia renovável.
Segundo a Agência Internacional de Energia, a África possui cerca de 60% dos melhores recursos de energia solar do mundo, mas apenas 1% da capacidade fotovoltaica instalada.
Adow disse que a África poderia facilmente se tornar uma superpotência de energia renovável.
Mas, em vez disso, disse ele, “os países europeus querem transformar a África em seu posto de gasolina”.