De um lado da nova estrada há uma área de desmatamento maciço onde o maior rebanho de gado do Brasil, 2,4 milhões de cabeças, agora pasta, — São Félix do Xingu (PA). O município, de 136 mil pessoas, é o segundo maior emissor de gases de efeito estufa do país, graças ao desmatamento, segundo o Observatório do Clima.
Do outro lado da estrada está uma área onde há três anos fazendeiros coordenaram a queima de várias faixas de mata virgem em um episódio conhecido como o “Dia do Fogo“.
Encravada no meio das duas áreas está a bacia do rio Xingu, um dos principais afluentes do rio Amazonas.
O Xingu começa no bioma mais seco do Cerrado, cercado por dezenas de milhares de quilômetros quadrados de áreas protegidas. O rio abriga vários povos indígenas, que agora são pressionados em ambos os lados por uma investida de colonos que construíram uma grande rede de estradas de terra e pistas de pouso ilegais.
Novos desmatamentos “no centro do corredor de áreas protegidas do Xingu trazem o risco de uma ruptura irreversível da floresta amazônica, dividindo-a em ilhas de floresta degradada, que não tem força para resistir às mudanças climáticas. Precisamos proteger e manter grandes corredores florestais para sustentar a resiliência do bioma ameaçado”, disse Biviany Rojas, coordenadora do programa do Instituto Socioambiental, uma organização sem fins lucrativos brasileira, à Associated Press.
Quase metade da poluição climática do Brasil vem do desmatamento, de acordo com o Observatório do Clima.
A destruição é tão grande agora que o leste da Amazônia, à leste da bacia do Xingu, deixou de ser um sumidouro ou absorvedor de carbono para a Terra e se converteu em uma fonte de carbono, de acordo com um estudo publicado em 2021 na revista Nature.
“Eles vêm para desmatar, extrair madeira e cavar ouro”, disse a líder indígena Mydjere Kayapo à AP em entrevista por telefone.
Seu povo, os Kayapó, sofreu invasões de madeireiros e garimpeiros, que contaminam os rios com lama e mercúrio, cooptam líderes e provocam divisões internas.
A nova estrada foi detectada no início deste ano. De acordo com imagens de satélite analisadas por uma rede de organizações sem fins lucrativos Xingu+ e revisadas pela AP, a estrada tem 43 quilômetros de extensão e corta duas áreas ostensivamente protegidas: a Estação Ecológica Terra do Meio, uma unidade federal, e a Floresta Estadual do Iriri, de responsabilidade do estado do Pará, famosa por seus índices de desmatamento.
De janeiro a agosto, só a Terra do Meio perdeu 24 quilômetros quadrados de floresta, e Iriri perdeu 6 quilômetros quadrados de floresta tropical ao longo da estrada ilegal. Em julho, o Xingu denunciou a construção ilegal de estradas ao procurador-geral do Brasil.
A cidade de Novo Progresso (PA) também fica a oeste da nova estrada. Nos últimos dias, a cidade foi coberta pela fumaça espessa dos incêndios florestais. Só na segunda-feira (22), sensores de satélite detectaram 331 focos de incêndio no município, segundo monitoramento do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais do Brasil (Inpe). Agosto, mês da estação seca, é tipicamente o segundo pior mês tanto para o desmatamento quanto para o fogo.
O Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), que administra áreas protegidas, e a Secretaria de Meio Ambiente do Pará, não responderam aos e-mails da AP pedindo comentários sobre a estrada ilegal.
Sob o presidente Jair Bolsonaro (PL), a área desmatada na Amazônia brasileira atingiu uma alta de 15 anos, segundo dados oficiais. O Inpe disse que seus sistemas de monitoramento mostraram que a Amazônia brasileira perdeu mais de 13,2 mil quilômetros quadrados de floresta tropical nos 12 meses de agosto de 2020 a julho de 2021. Novos dados são esperados até o final do ano.