Recorrentemente, o site do Hoje no Mundo Militar traz figuras de grande relevância de nosso país, e do exterior, para que elas deem suas opiniões e perspectivas sobre os mais diversos temas e assuntos. Por esses fatos, hoje trazemos mais um entrevistado de grande conteúdo e capacidade, o General Paulo Chagas.
HjNMM: Olá senhor, primeiramente gostaria de agradecê-lo por disponibilizar um pouco de seu tempo para responder algumas perguntas para os nossos leitores. Isso posto, gostaria de iniciar nossa entrevista pedindo por favor que se apresente.
General Paulo Chagas: Olá, sou o General de Brigada, Reformado, Paulo Chagas, tenho 73 anos, nasci no Rio de Janeiro, estudei nos Colégios Militares do Rio de Janeiro e de Porto Alegre e fui graduado na Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), no ano de 1971, na arma de Cavalaria. Fui comandante do Regimento Dragões da Independência e adido militar em Londres. Comandei a 7ª Brigada de Infantaria Motorizada, em Natal (RN) e encerrei a minha carreira no serviço ativo do Exército, em 2006, na função de 5⁰ Subchefe do Estado-Maior do Exército, Assuntos Internacionais. Fui chefe da Equipe Militar Brasileira de Hipismo nos Campeonatos Mundiais Militares realizados em Buenos Aires, na Argentina, e Porto Alegre (RS), nos anos de 2005 e 2006 e nos V Jogos Mundiais Militares, em 2011, no Rio de Janeiro. Hoje vivo em Brasília, onde fixei residência em definitivo.
HjNMM: Ao longo de nossa história o Brasil sempre foi enfrentando crises de todos os tipos, todavia, é notório que a atual crise institucional que o país enfrenta é sem precedentes. Em sua opinião, quais são os principais catalizadores desta crise?
General Paulo Chagas: Sem dúvida o que nos levou a esta crise foi o desuso dos chamados freios e contra pesos que têm por finalidade manter os Poderes da República em harmonia e dentro dos limites das suas atribuições. O Judiciário e o Legislativo, poderes que deveriam fiscalizar-se mutuamente, acabaram por unir-se para dar liberdade aos Juízes da Suprema Corte para atuarem, fora dos seus limites constitucionais, em desfavor do Executivo que, por sua vez, não reagiu às arbitrariedades com a veemência e com os recursos cabíveis em cada caso. Esses foram, basicamente os motivos que levaram o País ao impasse em que hoje se encontra.

HjNMM: Recentemente o senhor afirmou que o país está funcionando sob a tutela do judiciário, vulgo STF. E que o poder que teria condições de disciplinar essa instituição, (o Senado Federal), estaria em conluio com eles. Baseado em que o senhor fez essas afirmações?
General Paulo Chagas:As minhas afirmações são baseadas na evidência dos fatos e na letra da Constituição Federal. Os fatos estão na mídia e nas opiniões de renomados juristas e as causas no descumprimento das missões constitucionais, já relatadas na sua pergunta, ou seja, a maioria dos Senadores se omite diante dos excessos dos Ministros do STF porque temem ter seus processos postos na pauta do Tribunal. Assim, o conluio fica caracterizado na prática do toma-lá-dá-cá, ou se você quiser, na máxima de que “uma mão Lava a outra”.
HjNMM: Partindo do pressuposto que um dos poderes invadiu as competências dos outros dois, e que o Estado Democrático de Direito está de fato corrompido, as Forças Armadas deveriam agir de algum modo para salvaguardar a integridade da República Brasileira?
General Paulo Chagas: As Forças Armadas nunca faltaram à Nação e são o seu último recurso. Na circunstância que você cita elas devem agir por iniciativa própria, portanto, na oportunidade em que elas julgarem conveniente e útil, o que não pode ser antes ou depois do melhor momento. Se a tarefa e a iniciativa são das Forças armadas, devemos esperar que elas decidam o que, como e quando fazer.
HjNMM: Qual a sua opinião com relação aos protestos que estão ocorrendo dia após dia na frente dos quarteis? Para o senhor, eles são antidemocráticos?
General Paulo Chagas: Não são antidemocráticas, pelo contrário, são um direito do povo e é muito importante que o povo demonstre a sua capacidade de mobilização e a sua resiliência. Penso, no entanto, que deveriam ser feitas em frente às instalações dos poderes legislativos e judiciários, nos três níveis da administração pública, municipal, estadual e federal, não na frente dos quartéis. Os militares não precisam do clamor popular para tomar as iniciativas que lhes cabem, mas é muito bom saber que os brasileiros se sentem seguros e acolhidos nas áreas sob jurisdição militar.

HjNMM: Com relação aos relatórios apresentados pelas Forças Armadas e pelo PL, que trouxeram ainda mais dúvidas sobre o processo eleitoral brasileiro, qual é a opinião do senhor?
General Paulo Chagas: Essas suspeitas vêm reforçar a necessidade de que a lei da impressão do voto seja cumprida. A teimosia dos ministros do STF em negar a possibilidade de que haja auditoria e publicidade no processo de contagem dos votos é que dá aos eleitores o direito de ter suspeitas quanto à licitude do sistema. Este é um tema que deve permanecer na pauta intransigente de todos os brasileiros.
HjNMM: Durante sua campanha, Lula afirmou várias vezes que desejava despolitizar as Forças Armadas, e um dos planos de seu partido era criar uma espécie de guarda nacional. Qual sua opinião sobre isso?
General Paulo Chagas: Perda de tempo! As FA são instituições nacionais e como tal não são politizadas. Os militares, como cidadãos, têm direito e obrigação de ter opinião política e Lula não tem como mudar isso. Quanto à Guarda Nacional, embora eu julgue desnecessária, é preciso conhecer a proposta porque se for, por exemplo, nos moldes dos “coletivos” venezuelanos, não será aceitável.
HjNMM: Fora suas condenações por corrupção, Lula é um antigo aliado de ditadores, tais como os que governam Cuba, Nicarágua, Venezuela e Bolívia. Em todos esses países, as Forças Armadas se ajoelharam para esses ditadores, e o resultado foi um desastre gigantesco. O senhor acha que existe o risco de algo assim ocorrer no Brasil?
General Paulo Chagas: Não há este risco. As FA do Brasil nunca se ajoelharam nem se ajoelharão para nenhum ditador ou ditadura. Nenhuma ditadura se impõe ou se mantém sem a força das armas e estas estão muito bem guardadas sob a custódia das Forças Armadas, para atuar em defesa da democracia. A liberdade, o progresso e o futuro da Nação dependem da vontade do Povo e do compromisso com a democracia assumido, respeitado e cultuado por Marinheiros, Soldados e Aviadores brasileiros, porque, de fato, nenhuma ditadura serve para o Brasil!
HjNMM: Evidentemente a hierarquia e a disciplina são valores dignos e admiráveis, todavia, até mesmo homens íntegros e probos já atenderam as exigências nefastas de déspotas, e suas justificativas eram que “estavam apenas seguindo ordens”. Para o senhor, hipoteticamente falando, os militares brasileiros saberão defender os interesses da nação e de povo acima dos desejos de um déspota?
General Paulo Chagas: Isto nunca acontecerá no Brasil. Os militares brasileiros são formados para servir ao Brasil e não a personagens ou partidos. A força das Forças reside no prestígio conquistado pelo irrestrito cumprimento do dever constitucional com base na hierarquia, na disciplina, no respeito ao princípio da autoridade e na tradição esculpida em exemplos de amor e sacrifícios pela Pátria. Os Sodados do Brasil não cumprem ordens erradas. São fiéis e legítimos representantes da maior e melhor parcela da sociedade brasileira, democraticamente comprometida com os princípios fundamentais do Estado, muito clara e expressamente declarados na Constituição Federal. Não é por outra razão que os brasileiros confiam tanto nas suas Forças Armadas.
HjNMM: Chegando ao fim de nossa entrevista, gostaria muito de agradecer o senhor por sua atenção. Fora isso, se tiver alguma mensagem para passar aos nossos leitores, o convido a fazê-la.
General Paulo Chagas: Agradeço a oportunidade de expor o meu pensamento e as minhas convicções e colho este ensejo para dizer aos seus leitores que o embate de ideias e o contraditório fazem parte da democracia, sem eles não há evolução e nem maturidade política. Estamos, de fato, vivendo um momento difícil, mas que faz parte deste aprendizado. Já estivemos por bastante tempo sob a égide do PT e de seus aliados e soubemos tirá-los do poder com as armas da democracia. Precisamos, todos, olhar para trás e fazer uma honesta e isenta avaliação dos erros, acertos e principalmente das omissões que foram cometidas durante os últimos 4 anos e que permitiram que, em tão pouco tempo, a esquerda estivesse de volta ao poder. Errar é humano, mas não podemos repetir nossos erros. É dolorido perder, mas isto não pode ser motivo de desistência. Pelo Brasil todos os esforços valem a pena. Tudo o que fizemos uma vez poderá e deverá ser feito outra vez! Abraço a todos!
PS: (Se você chegou até aqui, e gostou do conteúdo, compartilhe com seus amigos e dê mais uma olhada no site. Temos inúmeras entrevistas com generais, embaixadores, juízes cientistas políticos e outras figuras de renome)

Fontes das imagens: www.pbs.org, wikipédia, www.iheartbrazil.com e www.folhapolitica.org
mundo militar
Fonte: ATrombetaNews








