O Dia Mundial da água, comemorado neste 22 de março, é marcado por reflexões acerca do bom uso da água potável, despoluição dos mananciais e proteção das fontes no planeta.
No Maranhão, a data também traz à tona temas que são pouco discutidos no presente, mas que os cientistas já colocam como pautas recorrentes em um futuro próximo. A falta de recursos hídricos é um desses assuntos.
De acordo com o professor e engenheiro sanitário e ambiental, Lúcio Macedo, em seu trabalho ‘Gestão das águas no Maranhão’, o estado possui hoje apenas 30% de água potável em suas bacias hidrográficas.
“O percentual de água potabilizável nas bacias hidrográficas dos rios Itapecuru, Mearim, Munin, Tocantins, Pindaré é de 30%. A poluição por esgotos e a cunha salina existentes nas bacias do Periá, Açailândia, Paruá e os rios da Ilha como o rio Anil, Bacanga, Pimenta, Calhau estão totalmente contaminados”, afirma Lúcio, que também é professor pela UFMA e UEMA.
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Lixo toma conta da vegetação as margens do Rio Itapecuru no Maranhão. — Foto: Reprodução/TV Mirante
Dentro da Ilha de São Luís, a forte poluição no rio Paciência também é apontado como um agravante para o abastecimento dos moradores. A bacia do Paciência, por exemplo, ainda é usado para consumo dos moradores.
“Outro exemplo é o caso do rio Pericumã, que é ainda utilizado como manancial para a cidade de Pinheiro, mas sofre influência da baia de São Marcos”, declara o pesquisador.
São Luís – Abastecimento ineficaz com recursos locais
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Vista para o rio Paciência e o mangue no Porto da Salina, em Paço do Lumiar — Foto: Rafael Cardoso/g1 Maranhão
Apesar de recorrente, a capital maranhense, segundo os especialistas, não deveria sofrer tanto com escassez de água, pois, mesmo com o atual número populacional, de mais de 1 milhão de pessoas, há na ilha 11 bacias hidrográficas: Anil, Bacanga, Tibiri, Paciência, Inhaúma, Praias, Santo Antonio, Estiva, Geniparana, Cachorros e Itaqui.
Dentro dessas bacias estão ao menos nove rios, sendo a maioria de pequeno porte e que desaguam em diversas direções, abrangendo dunas e praias. Os maiores são o rio Anil, com 12.63km de extensão; e Bacanga com 233,84 km.
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Para os pesquisadores, a urbanização desenfreada em São Luís sem um plano diretor ocasiona há anos um desequilíbrio no uso da água disponível na natureza. Por outro lado, a poluição eliminou as possíveis alternativas que a população teria para o próprio abastecimento. Atualmente, não há sequer um rio completamente limpo na capital maranhense.
“O processo de ocupação do solo da Ilha vem sendo desencadeado sem obediência a um plano de gestão ambiental ou aos critérios e normas de um plano diretor, agravando o quadro de degradação das bacias e colocando em risco os ecossistemas costeiros, incluindo os mananciais que abastecem a região”, apontou o pesquisador Sérgio Barreto de Sousa, em seu trabalho ‘Recursos Hídricos da Ilha do Maranhão, de 1997.
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A capital maranhense ainda é dependente, na maior parte de seu território, do Sistema Italuís, que transporta água do rio Itapecuru até São Luís. O sistema realiza o abastecimento para mais de 600 mil pessoas em mais de 100 bairros. Um rompimento na tubulação, como o ocorrido em 2019, deixa quase metade da população ludovicense sem água.
“A urbanização e ocupação irregular das áreas de descarga de aquíferos é também um grande problema, especialmente em São Luís. A solução para estes problemas é uma gestão competente dos Recursos Hídricos com observância da Legislação Ambiental”, diz Lúcio Macedo.
“O sistema de abastecimento precisa ser modernizado, pois em muitas zonas da cidade, devido a capacidade de distribuição do sistema, ainda é necessário realizar rodízio na distribuição, o que causa transtorno à sociedade. Apesar de São Luís atingir possuir um índice de 83,25% de atendimento dos serviços de abastecimento de água, a cidade perde 63,78% da água produzida no sistema de distribuição”, aponta o professor Leonardo S Soares, do departamento de Oceanografia e Limnologia da UFMA.
E a poluição não é o único problema
Apesar da poluição ser um dos principais fatores que inviabilizam a utilização da água, problemas de ordem geológica ou de desmatamento também preocupam.
Ao g1 Maranhão, o pesquisador do Departamento de Oceanografia e Limnologia da UFMA, Denilson Bezerra, aponta o crescimento no processo de desmatamento da vegetação próximo as áreas onde rios e lagos se formam no estado e no Brasil.
De acordo com o “MapBiomas Água”, o Brasil perdeu aproximadamente 15% da superfície de água entre 1985 a 2020. Segundo o levantamento, a retração da superfície coberta com água no território brasileiro foi de 15,7% desde meados dos anos 90. Para o Maranhão, apesar de não haver dados concretos, é possível fazer estimativas.
“Se levarmos em consideração que o Estado está inserido em três regiões hidrográficas: Parnaíba, Tocantins-Araguaia e a Região Hidrográfica do Atlântico Nordeste Ocidental, e que essas regiões perderam superfície de água, respectivamente, entre 1900 à 2020 na ordem de: 26.697ha (uma perda de 19%), 75.249ha (uma perda de 4%) e 67.279ha (uma perda de 14%). Podemos inferir que nas últimas décadas o Maranhão pode ter perdido uma parte significativa da área de ocorrência dos seus corpos hídricos (ou seja, sua água) e, simplesmente, não estamos nos dando conta desse cenário extremamente preocupante”, alerta Denilson.
Como solução, o pesquisador propõe ações mais firmes do poder público para evitar que o processo de perda de áreas com potencial hídrico se acentue, o que poderia acarretar no fim definitivo de rios e lagos.
“É necessário existir um programa oficial do governo maranhense de monitoramento de alterações na superfície de área de ocorrência dos corpos hídricos do Maranhão. Uma vez que, eventos de desmatamento, avanço de áreas urbanizadas e pressão imobiliária acarretam perda da vegetação primária e secundária, e este processo, além de acarretar redução da biodiversidade biológica e dos serviços ecossistêmicos, também promove ações de erosão/assoreamento de corpos hídricos, compactação do solo (que afeta a infiltração da água no solo) e aterro de áreas costeiras; o que, por consequência pode promover a perda de área de nossos rios, lagos e afins”, explica o pesquisador.
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