Agora voltemos para 2022. Putin lançou uma guerra em grande escala contra a Ucrânia, mas as forças armadas ucranianas estão resistindo duramente. Nações como EUA e países europeus — para surpresa do Kremlin — se uniram para impor sanções econômicas e financeiras que podem estrangular Moscou. A própria existência do “sistema Putin” pode estar em xeque.
“Putin está em apuros”, acredita Pavel Felgenhauer, analista de defesa de Moscou. “Ele não terá muitas opções depois que o Ocidente congelar os ativos do Banco Central russo e o sistema financeiro da Rússia implodir de verdade. Isso tornará o sistema inviável.”
“Uma opção para ele é cortar o fornecimento de gás para a Europa, esperando que isso faça os europeus cederem. Outra opção é explodir uma arma nuclear em algum lugar sobre o Mar do Norte entre o Reino Unido e a Dinamarca e ver o que acontece.”
Se Vladimir Putin escolhesse a opção nuclear, alguém em seu círculo próximo tentaria dissuadi-lo? Ou impedi-lo?
“As elites políticas da Rússia nunca estão com o povo”, diz Muratov. “Elas sempre ficam do lado do governante.”
E na Rússia de Vladimir Putin o governante é todo-poderoso. Este é um país com poucos freios e contrapesos; é o Kremlin quem dá as ordens.
“Ninguém está pronto para enfrentar Putin”, diz Felgenhauer. “Estamos em um ponto perigoso.”
Presidente Putin anuncia ofensiva militar em pronunciamento televisionado; ele instou os soldados ucranianos a se renderem e voltarem para casa — do contrário, a própria Ucrânia seria culpada pelo derramamento de sangue, e acrescentou que o conflito entre as forças russas e ucranianas são ‘inevitáveis’ e ‘apenas uma questão de tempo’ — Foto: Reuters
“Putin disse que qualquer interferência externa no conflito, ou qualquer ação contra a Rússia, gerariam uma resposta forte. Nas entrelinhas, há uma ameaça nuclear”, diz Alexander Lanoszka, professor de Relações Internacionais da Universidade de Waterloo (Canadá) e especialista em segurança nuclear. “Mas há um interesse comum de todas as partes de restringir esse conflito à Ucrânia. Então, eu ficaria muito surpreso se armas nucleares fossem usadas neste momento”.
Segundo Vicente Ferraro Jr., cientista político e pesquisador do Laboratório de Estudos da Ásia da Universidade de São Paulo (USP), mesmo no caso de um ataque russo contra outras ex-repúblicas soviéticas que hoje fazem parte da Otan, como a Estônia, Letônia e Lituânia, é possível que as duas partes prefiram minimizar os riscos. “Assim como o Ocidente e a Otan evitam conflito direto na Ucrânia, Rússia também evitaria um confronto no restante do Leste Europeu”, afirma.
Para Andrew Futter, professor de política internacional da Universidade de Leicester (Reino Unido), também não há qualquer indicação de que Moscou pretenda usar suas armas nucleares contra a Ucrânia. “Não vejo nenhuma razão pela qual Moscou usaria armas nucleares contra a Ucrânia. Não apenas porque qualquer material radioativo tão perto de sua fronteira pode ser perigoso, mas também porque eles provavelmente não querem destruir o país e a população ucraniana, já que seu plano parece ser incorporar o território à Rússia.”
Larlecianne Piccolli, pesquisadora especializa em armas estratégicas e política de segurança e defesa da Rússia e diretora do Instituto Sul-Americano de Política e Estratégia (Isape), escreveu em seu perfil no Twitter que a elevação do alerta feita por Putin visa principalmente intimidar a Ucrânia e forçá-la à mesa de negociações, algo que já está em andamento. Mas os termos em negociação ainda não foram divulgados oficialmente.
De qualquer forma, a guerra na Ucrânia é a guerra de Vladimir Putin. Se o líder do Kremlin atingir seus objetivos militares, o futuro da Ucrânia como nação soberana estará em dúvida. Se for percebido que ele está falhando e sofrer baixas pesadas, o medo é que isso possa levar o Kremlin a adotar medidas mais desesperadas.
Especialmente considerando que “ele nunca faria isso” é algo que não se aplica a Putin.