Em 1990, o primeiro McDonald’s era aberto em Moscou, a homossexualidade deixava de ser uma doença, as duas Alemanhas tornavam-se uma só e, no Japão, era lançado o Super Nintendo. Em 24 de abril daquele ano, subia à órbita terrestre o ônibus espacial Discovery, levando a bordo aquele que carregava as esperanças por um novo salto na astronomia e na física espacial: o telescópio espacial Hubble.
O Hubble sobe ao espaço a bordo do ônibus espacial Discovery.Fonte: NASA/Divulgação
Em três décadas de atividade, ele se provou mais do que fonte de “imagens bonitinhas”, como era desdenhado dentro de alguns círculos da NASA. Graças a ele, os cientistas olharam mais longe e perceberam detalhes antes desconhecidos em nosso quintal planetário. O Hubble nasceu na esperança, cresceu alimentado de expectativas e falhou miseravelmente quando foi posto em ação.
Espelhos feitos no vácuo
Quando foi posto em órbita, os engenheiros de voo soltaram a respiração ao perceber que o telescópio havia sobrevivido incólume ao lançamento. Em 20 de maio, as primeiras imagens começaram a chegar – mas a única coisa que se via eram borrões. O Hubble era míope.
A primeira imagem do Hubble era apenas um pouco melhor do que a captada por um telescópio na Terra.Fonte: NASA/Divulgação
Um de seus espelhos havia sido polido incorretamente e esse erro (menor que a espessura de um fio de cabelo) tornava-o um dos maiores e mais caros fiascos da história da NASA.
Polido com piche
A produção do espelho principal começou em 1977, quando foi feito seu molde em vidro. Ele não é um espelho convencional (que o faria muito pesado) e sim, duas finas fatias de silicato de titânio; a uni-las, tubos de vidro e separá-las, apenas ar.
Duas empresas rivais foram chamadas: a Perkin-Elmer (empresa americana especializada em instrumentos ópticos e eletrônicos) e a gigante das máquinas fotográficas Eastman-Kodak. A primeira ganhou o contrato.
Um dos espelhos do Hubble sendo polido nas instalações da Perkin-Elmer.Fonte: NASA/Coleção Marshall Space Flight Center/Divulgação
A fase final do polimento envolveu um suporte feito de barras de titânio (cada uma encimada por uma safira) ajustado nas costas do espelho. Deitado nesse berço caro (US$ 2 milhões), o espelho foi polido por meses, dia e noite, usando-se algo como… piche e pó de arroz.
O polimento consistia em esfregar cada milímetro do espelho com esse piche e, para que ele não riscasse o vidro, sobre ele os técnicos aplicavam um quase pó de arroz. Para saber onde polir, foi usado um laser que, ao deslizar sobre a superfície, produzia um gráfico com irregularidades na superfície de bilionésimos de milímetro.
Reflexão quase perfeita
Ao fim do processo de polimento, o espelho foi levado para uma câmera de vácuo. Era novembro de 1981. Os canhões de elétrons começaram seu trabalho de vaporizar o alumínio que seria a superfície refletora do espelho (e a camada não poderia ter mais que 80 nanômetros de espessura). Três minutos depois, os técnicos abriram a câmara… e não havia nada lá, a não ser uma sala vazia e um teto estranhamente mais alto.
“Percebi depois que estava olhando para o reflexo de um espelho de brilho fantástico”, conta o engenheiro Jack Kurdock, então na Perkin-Elmer. A NASA, nas palavras do engenheiro William Fastie, considerou que “o Telescópio Espacial Hubble tem o espelho mais perfeito já construído. Não temos dúvidas de que, com ele, enxergaremos centenas de milhões de anos-luz além do que esperávamos”.
Por três anos, o Hubble permaneceu em um galpão esterilizado na Califórnia à espera de seu lançamento, adiado inúmeras vezes por conta dos atrasos no programa espacial americano. Se quando o Discovery lançou-o na órbita terrestre foi o clímax de uma longa espera, o fatídico 20 de maio de 1990 foi como um anticlímax: o Hubble precisava de óculos, e não havia ninguém que pudesse entregá-los, a 612 km de altitude.
US$ 1,5 bilhão por borrões
No dia em que o telescópio espacial abriria os olhos pela primeira vez, a sala de imprensa do Centro Espacial Goddard estava lotada, obrigando jornalistas atrasados a ocuparem o centro de visitantes. “Os astrônomos gemeram e todo mundo ficou um pouco perplexo e desconfortável quando a imagem apareceu, porque estava muito fora de foco. Alguém disse, ‘É isso mesmo?’ “, lembra o cientista sênior do projeto, o físico e astrônomo Dave Leckrone.
Mais três anos foram necessários para que uma equipe do ônibus espacial Atlantis, trabalhando por 35 horas no espaço, consertasse o Hubble. E ele finalmente viu o universo.
Os famosos “Pilares da Criação”, aglomerados de poeira e gás na nebulosa da Águia, a cerca de 7.000 anos-luz da Terra.Fonte: NASA/ESA/Hubble Heritage/Divulgação
A Nebulosa da Borboleta, a cerca de 2.000 anos-luz da Terra.Fonte: NASA/Divulgação
O mais longe que o Hubble foi capaz de ver: uma pequena região do espaço na constelação da Fornalha, a 45 milhões de anos-luz da Terra.Fonte: NASA/ESA/Divulgação
Em breve, a aposentadoria
Além de ter popularizado o universo e a astronomia como nem mesmo Carl Sagan conseguiu, o telescópio espacial ajudou a compreender melhor tópicos ainda nebulosos para a ciência, como a natureza dos buracos negros e a matéria escura.
O Hubble passou por sua última manutenção em 2009; não haverá outra. Seu sucessor, o Telescópio Espacial James Webb (JWST), deverá ser lançado em 30 de março de 2021 – dessa vez, não na órbita terrestre, mas a 1,5 milhão de quilômetros da Terra. Enquanto ele não é lançado, o Hubble continuará a fotografar, medir e bisbilhotar o universo para nós.
Fonte:TecMundo








