Há mais de um século, mulheres foram mortas incendiadas por protestarem por direitos. À época, mais precisamente em 1857, elas queriam licença-maternidade e melhores condições de trabalho. A tragédia fez com que, posteriormente, fosse instituído o Dia Internacional da Mulher, em 8 de março. A data é lembrada com dor, mas também reconhecimento por ter sido um dos principais passos na luta feminista pela igualdade. Contudo, com o passar do tempo, a influência do mercado ofuscou o verdadeiro significado da data, e mulheres passaram a ganhar presentes. A bonificação, no entanto, não representava autonomia, tampouco novas vagas em cargos de chefia. Eram flores e bombons para parabenizá-las, de uma certa maneira, apenas por serem mulheres. E nada mais.
Há algum tempo, a mobilização das mulheres para que o 8 de março fosse ressignificado fez com que a data fosse levada às ruas — com intervenções, protestos e debates. O que antes era instrumento de luta, atualmente está na Consolidação das Leis do Trabalho — a licença-maternidade no Brasil foi aprovada em 1943. Um item riscado entre tantos outros da lista de demandas do movimento. Agora, no Dia Internacional da Mulher, a exigência é por mais representatividade, segurança, autonomia sob o próprio corpo, seguir a orientação sexual que lhes convir, viver da maneira como bem entenderem. Pela dignidade, pelo respeito e pelo direito de ir e vir sem medo.
A socióloga e professora da Universidade de Brasília Tânia Maria Campos de Almeida explica que o mercado se apropriou da data para fazer negócio. Assim, a descaracterização do dia veio como consequência. “A indústria retirou o poder político dessa data. É fundamental retomar a essência e entender que é um dia de luta por nossos direitos, que, por sinal, não estão garantidos”, pontua. Para a especialista, é preciso uma mudança de mentalidade não só das mulheres, que devem ir à luta por seus ideais, mas principalmente dos homens. A reflexão e os atos, segundo Tânia, devem atingir a sociedade de uma maneira estrutural.
“Alguns homens precisam ter autocrítica e entender que ‘precisam ser homens’ de outra maneira. Entendo que eles sejam também reféns do machismo, porque são cobrados. Mas isso não os deixa isentos de identificar o lugar deles de privilégio. Não há uma reflexão crítica nisso”, justifica. Tânia diz ainda que o patriarcado e o machismo surgem com novas caras. Para superá-los, são necessárias a educação, a informação e a empatia da população. “A sociedade tem características de uma sociedade moderna, mas com problemas antigos. É preciso identificar novas maneiras de fazer frente contra a opressão. Não é só uma simples questão de educação formal. É um problema de pensamento que atinge a elite, os privilegiados”.
A professora atribuiu ao avanço das tecnologias e à criação das redes sociais o engajamento cada vez maior de jovens meninas na militância feminista. “As mulheres entram na militância cada vez mais novas e isso é um fenômeno recente. Os novos instrumentos de comunicação são uns dos maiores responsáveis por esse engajamento, porque unem mulheres de diferentes idades, em uma conversa horizontal e com fácil acesso às informações”.
Correio Braziliense