Os esforços do governo estão sendo insuficientes para conter a crise internacional provocada pela Operação Carne Fraca. Somente ontem, México, Japão, Suíça e Hong Kong decidiram suspender a importação do produto brasileiro. Os países se unem a Chile, Suíça, China e União Europeia, que já haviam anunciado sanções na segunda-feira. Apenas Coreia do Sul, que havia suspendido a compra da carne brasileira, revogou a decisão. Em conversas com o ministro da Agricultura do Chile, o secretário executivo do Ministério da Agricultura (Mapa), Roberto Novacki, recebeu a promessa de que o governo chileno vai reverter a suspensão.
Diante do mal-estar causado pela forma como a investigação foi anunciada na última sexta-feira, 17, o Ministério da Agricultura (Mapa) e a Polícia Federal (PF) divulgaram nota conjunta, depois do encontro de Novacki com o diretor-geral da PF, reafirmando o compromisso de ambas as instituições de elucidar os fatos investigados. A nota foi interpretada como um recuo da PF.
De acordo com o comunicado, a Carne Fraca tem como foco a eventual prática de crimes de corrupção por agentes públicos no Sistema de Inspeção Federal (SIF). “Os fatos se relacionam diretamente a desvios de conduta profissional praticados por servidores e não representam mau funcionamento generalizado do sistema de integridade sanitário do país”. “O sistema de inspeção federal brasileiro já foi auditado por vários países que atestaram sua qualidade.”
Peritos
Além do Mapa e da PF, a Associação Nacional dos Peritos Criminais Federais (APCF) também se manifestou sobre a operação. Segundo a APCF, as conclusões da operação sobre os danos à saúde pública não têm embasamento científico, uma vez que os peritos federais foram acionados pela Polícia Federal (PF) apenas uma vez durante as investigações e que o laudo resultante desse trabalho não comprovou tais danos.
Por mais que o governo esteja prestando esclarecimentos individuais e de maneira rápida a cada país, especialistas e os próprios representantes do Mapa temem que a imagem do Brasil fique arranhada no comércio exterior. Somente em 2016, o governo acumulou um total de US$ 5,5 bilhões em exportações de carnes para Hong Kong, China, Japão, Chile e Holanda. O valor representa cerca de 39,3% do total da venda internacional no ano passado. “Se falarmos que terá um solavanco de 7% a 8% no mercado, falamos de US$ 1 bilhão por ano. Mas, se conseguirmos ser transparentes, rápidos e convincentes nas nossas explicações, não teremos bloqueio”, analisou o ministro da pasta, Blairo Maggi.
Para frear a desconfiança dos mercados, o ministro convidou jornalistas para visitarem uma das 18 plantas frigoríficas que estão sob regime de autoembargo do governo federal. Elas estão aptas a produzir e distribuir alimentos no Brasil, mas estão proibidas de exportar. O secretário de Defesa Agropecuário do Mapa, Luiz Eduardo Rangel, assegura que não foram encontradas irregularidades sanitárias na unidade e, por isso, ela continua em operação. “A planta foi interditada por suspeita no processo de certificação. O que está em xeque nessas unidades é a credibilidade do processo. Precisamos descobrir o que aconteceu para retomar a confiança e mostrar que nosso processo de fiscalização funciona”, justificou.
A unidade escolhida fica em Lapa, interior do Paraná. Lá, são produzidas peças de frango da Seara, empresa da JBS, que está sob investigação da Polícia Federal. A planta exportou em 2016 mais de 100 mil toneladas. Embora a unidade não apresente irregularidades sanitárias, como destacou o governo, está sob investigação por motivos de corrupção. Dos 33 servidores afastados do Mapa, três são suspeitos de terem fraudado o processo de certificação sanitária internacional.
Carência
O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) admite que a quantidade de fiscais da pasta está aquém das necessidades. O ministro Blairo Maggi avalia que seria necessária a realização de um novo concurso público para suprir a carência de servidores, mas admite que, diante da atual crise fiscal, não há condições no momento. A pasta estima que há carência de 172 fiscais. Para driblar a crise, o ministério abriu a possibilidade de remoção voluntária de funcionários. Feito esse primeiro procedimento administrativo, o governo promoverá uma ação de remoção de ofício, a fim de reforçar a fiscalização onde é necessária.
Correio Braziliense








